Terça-feira, 13.08.13

ESPELHO

 

 


Abre-se o sol numa outra madrugada 

Para iluminar os espelhos de orvalho

Saído de uma nuvem qualquer onde um pássaro

Por livre arbítrio se embriaga de pérolas de água

Rodopiando nas correntes de vento que lhe sopram o rumo.

 

Dos sonhos, das inebriações de prazer, emergem soluços 

Nos ruídos da fogueira onde as chamas abrem grutas de luz.

No âmago dos troncos o olhar se esgueira pelas tonalidades da cor

Enquanto o calor se enrola e desprende fagulhas que vogam

Semeando cinzas por sobre os ombros, os cabelos, leves, leves.

 

Há então uma paragem no tempo, uma suspensão dele

Apagam-se os pensamentos, as estrelas não cintilam

Como se o universo fosse apenas aquela caverna brilhante

Na cova dos cepos, a gruta que atrai e fere e purifica.

 

E assim chega num repente o recomeço

Mais uma translacção do mundo em noites em dias

Numa sucessão eterna para os mortais que somos, estamos.

Cá dentro as contradições dos tempos, as recordações da infância

Os destemperos das vidas, as desilusões que o tempo não apaga

Os contentamentos os desenganos a falsidade da vida. 


nuvem de voos:
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Domingo, 09.12.12

OUTRA VEZ NATAL

 

 

 

Roubei-te aqui, a casa onde pertences, mas vives também no coração dos outros

cada vez mais lindo cada vez mais sereno cada vez mais doce cada vez mais tu.

Há um amigo novo, um felino, não veio tirar o teu espaço e tu sabes disso, mas

o espaço espaço, o espaço físico, o lugar onde te deitas é disputado em lutas

para as quais já não tens paciência, brigas de cachopo, o Cid armado em gente,

a querer tudo o que é teu, até o teu sossego a tua paz o teu descanso.

É o oitavo (?) o nono (?) Natal que partilhas connosco, a lambariscar manteiga

a provar o chantilly antes de todos, a procurar o calor do lar na cadeira de lona.

Que haja muitos mais natais, sem burro e sem vaca, mas com gatos sem igual,

com amor sem tamanho, os pais os filhos os bichos a família os amigos.

Ah, e a lembrança dos que já não estão.

Bom Natal!

 

nuvem de voos: ,
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Sexta-feira, 31.08.12

INEXACTIDÃO

 

Há quanto tempo não piso este solo de magia onde tantas vezes fui feliz

Há quanto tempo não canto não assobio a chamar os cães não bato palmas

Há quanto tempo não choro não rio não corro não danço é como quem diz

Há quanto tempo estou eu vazia oca por dentro os olhos enchidos de nada

O crânio inchado como uma atmosfera os ouvidos tapados sem som

À espera de um horizonte elevado e nevoento a lembrar a minha serra

À espera de um horizonte largo de mar parado ou tocado de vento

Trazendo fragrâncias aromas perfumes de outros continentes tão meus

Neve branca lavando os campos e árvores despidas bradando aos céus.

 

Estou só na solidão de mim, real como os dedos que dedilham as teclas

As mãos que outrora cingiam canetas com dedos borrados de tinta

As mãos que eram ágeis esguias sem veias gritando por mais espaço

Estou só como um dia cinzento de chuva miúda que perdura no tempo

Mansa a fechar os horizontes azuis sem nuvens brancas vagando no céu

A acordar os encantamentos de antanho na descoberta de imagens

Sucedendo-se nelas ao correr dos sonhos vertidos em letras em frases

Sem tino, sem gosto, sem tom, sem memória, sem vida, só cansaço.

       
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Quarta-feira, 27.06.12

PAISAGEM

 

Eu sou só assim, mesmo assim sem outro jeito de sentir

de procurar sempre olhar tudo como se fosse a primeira vez.

Porque é a primeira vez em tudo mas escondido no meu canto

quantas vezes numa parede aberta branca em que o meu corpo

mínimo humilde aparece pernilongo e eu sem me dar conta

à mercê dos bicos das aves das línguas dos répteis.

 

Quero abrir-me por dentro, sei que não sou o que pareço,

não sou o que queria ser, nem sequer sou o que julgo que sou

ou talvez sim, à luz da minha razão que não é a razão dos outros

eles não me entendem a voz o sorriso não lêem o que escrevo

nas entrelinhas porque eu nunca escrevo as palavras que não sei

as palavras que não há porque não foram inventadas ainda.

 

Não sou gente, não choro quando devo e choro quando não quero

lágrimas que ninguém vê porque não correm na face e escorrem

por dentro formam rios de espanto que o mundo não conhece

não tem tempo de ver, não olha sequer não vive não ama

senão a si próprio, esquecendo que amar o outro é receber

em troca mais, muito mais cada vez mais mil vezes mais

e não ser capaz de retribuir o que é tanto o que parece pouco

mas é tudo para quem sabe receber o amor na palma da mão

os dedos à espera do afago quando ele chega manso

e pousa sem medo como ave tranquila à espera

da migalha que lhe enche a alma.

 

 

 

 

 

 

nuvem de voos:
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Domingo, 27.05.12

SEPTUAGENÁRIO

 

 

Septuagenário era aquele velhinho curvado, cansado

que plantava uma árvore sozinho na planície, no pomar

a quem o menino puro e sincero ainda não contaminado

de mentiras e disfarces tão próprios da raça humana indagava

– então avozinho para que se dar ao trabalho de plantar

 uma árvore se já não vai poder colher-lhe os frutos?

 

Mas septuagenário não é só aquele velhinho cheio de cãs

de voz doce e olhar manso, todo desvelos e complacência

septuagenário é também aquele ser melífluo, lazarento

e cínico, sem pingo de dignidade a usar chapéus violeta.

 

Quem usa chapéu violeta não pode ser rei, só se for a rainha

de Inglaterra (mas isso é outra história, é nobreza, é gravidade)

septuagenário é aquele outro ao lado, embaixador e juiz e médico

e jornalista e padre e professor, a manchar o nome dos outros

septuagenários, sexagenários, homens de carácter a tentarem

compreender o mundo, manter-se inteiros na apertada linha

que os condiciona, a tentarem sobreviver na multidão feroz

que os afoga, a tentarem colher o resquício de uma solidariedade,

de uma afectividade cada vez mais rara, a seguirem a custo

na linha esticada por sobre o que já não compreendem, onde

mal se equilibram, se sentem pesados, onde não têm lugar.

 

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Terça-feira, 28.02.12

TEMPO DE NEBLINA

 

 

Como se o nevoeiro apagasse a palpitação do corpo

Como se luz emanada embrulhasse num lenço branco

A cor viva do sangue que corre em cada batida assim

Como se tudo o mais acabasse em branco brando desejo

E só o ruído forte lembrasse a macieza do líquido

Que corre quente nas veias, escorre de nós e não se esgota

No sopro que recolhe o aperto do músculo ritmado

Cego obediente, operário diligente cumpridor até ao fim.

 

Estou assim branco e vazio, eivado de melancolia

Sem calor sem cor sem um sol que arda de esperança

Num quebranto numa dor cá dentro que não sei

Se é porque dói se é porque apenas erra quando lança

Um olhar ansioso ao lugar das promessas por cumprir

E encontra o que já sabe que não vê e não quer olhar

E vira o rosto porque já sabe de cor a imagem fria

Seca, vergada dos ventos e dos anos o adobe as ruínas

Desfazendo-se ainda em cada nova temporada

As chuvas outra vez o cacimbo as chuvas o cacimbo.

 

O nevoeiro esconde os brilhos os diamantes eternos

Pulsando no estertor das vidas, guardados na memória

Que a noite traz a povoar a escuridão a semear os sonos

De fantasias de pesadelos de prazeres de sonhos sem glória

Prenhes de assombros de entregas de amor e de espanto.

 

nuvem de voos:
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Domingo, 25.12.11

NATAL POBRE

 

Hoje é dia de Natal e um dia diferente dos outros natais.

É um dia cheio de sol e de luz o céu azul sorrindo, o vento na lida,

A temperatura é baixa ou não seria Dezembro, abre espaço à fogueira

Deixa os troncos gemerem torcidos, lambidos pelas chamas coloridas

A chamarem os homens à conversa, a aquecer as mãos e os corações.

 

Mas hoje não é um Dia de Natal para mim como os demais

Falta-me o calor das gentes, das conversas mansas das mulheres

Depois do almoço a louça lavada enxugada a muitas mãos

Os panos de algodão a enxugarem no calor do lar suspensos

Nos ferros com que os homens remexem as brasas rodam os troncos

A ida a pé ao café da aldeia as fotografias os risos os abraços

Os jogos as brincadeiras as conversas furtivas dos mais novos.

 

E a fogueira grande, senhor, a fogueira mais alta do que nós

A fogueira bonita chegando ao céu a iluminar tudo a arrostar

A chuva a geada, a olhar por nós a dar-nos o calor a companhia

A fogueira a arder devagar a crepitar a contar dos outros natais

A desenhar no fumo que sobe os nomes as figuras os recortes

Do riso dos sorrisos dos trejeitos de puxar o casaco ao ombro

 

E quando a noite avança e todos já cansados se recolhem ao lagar

Aquele momento supremo de encontro a sós a murmurar

A lembrar outro tempo outros seres que nunca estiveram

Mas que chegam ao apelo da solidão e da saudade

Presentes só eles e eu.

nuvem de voos: ,
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Sexta-feira, 18.11.11

Novo Inquilino

 

 

 

- Esta banda desenhada não é para mim… ou será?

- Não sei. Tu estás de dieta?

- Eu? Não estás a falar a sério! Eu não sei o que é isso, sei da dieta de não ter de comer e agarrar-me às tetas da minha cadelinha, bem-amada para todo o sempre!

- Não te lamentes que até tiveste sorte.

- Não me lamento coisa nenhuma, não sou homem para essas coisas. Pensando bem, obrigas-me tu a uma dieta a que ainda não estou acostumado.

- Pois, pois, mas esse pelo macio e brilhante, esse esqueleto bem afeiçoado, esse andar de felino assírio, a quem o deves?

- A mim, que estou sempre alerta para que não falte na tigela aquele granulado saboroso e, se puder, deitar o dente ao do Chatgris,!

- Pois para atrevido não te falta nada! Contas com a delicadeza dos outros, mas o respeito pelos mais antigos ficava-te bem!

- Eu não lhe falto ao respeito, ele é que se arma em velhadas e tem de espertar que a vida ainda tem muito para nos dar, ora essa. E depois, não viste como ele ontem me trouxe aquela louva-a-deus para eu brincar?

- Certo, mas não te fies muito. Se calhar, se fosse um pardalito não seria tão amável…

- Não subestimes a minha capacidade de sedução. Ele gosta de mim a valer. Acha-me graça. Também quer brincar comigo, mas quer armar em sério. Isso passa-lhe com o tempo. É muito cortês e também sei pôr-me no meu lugar.

- Ele é que te põe no lugar, diz assim. Eu bem vi ele dar-te nas orelhas um dia destes…

- Verás se  à lareira não vai ser ele a deitar-se ao pé de mim.

- Vou ficar à espera. E que seja antes do Natal.

- Anda lá encher-me a gamela, não esperes pelo Natal.

- Há crise mas nem tanto, descansa!

nuvem de voos:
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Domingo, 16.10.11

Sonhos de Púrpura

 

São contra a realidade pungente os sonhos que povoam as noites

noites de sonhos serenos quietos normais no proceder insano?

De mãos posadas na secretária imensa arrumada os braços esticados

De pé frente a uma máquina de escrever gigante onde um homem escrevia

alinhava na vertical cercaduras de rosas minúsculas como se ordenasse

uma tapeçaria ou antes inventasse o desenho de uma seda finíssima

ela com os olhos presos no desenho e ele repetindo o nome dela

sim respondia e olhava o relógio de pulso marcando cinco e vinte e oito

o que quer ele agora não tarda a minha hora de sair mas diga lá

e ele repetia o nome querendo que ela afastasse da seda do desenho

os olhos presos alegres seguindo o matraquear da máquina de escrever

antiga que já não se usa como aquelas em que escrevia no laboratório

onde treinava aprendia a escrever depressa sem olhar o teclado como

na casa ECO de nome com a senhora francesa assinante do Paris Match

que ditava palavras repetia palavras cada vez mais depressa e olhava

o relógio de pulso e contava o tempo que demorava a escrevê-las

AZERT POUIY o teclado universal, HCESAR o nacional dos funcionários

públicos das instituições do estado onde as máquinas eram assim

ela aprendeu a escrever a cinco dedos o polegar marcando espaços

AZERT a mão esquerda, POUIY a mão direita e o tempo marcou

espaços e letras a esquerda a direita a vida dividida esquerda direita

como os soldados da bateria em frente da casa esquerdo direito

esquerdo direito e por que não direito esquerdo direito esquerdo

nunca soube a razão só o som do tambor a marcar os passos iguais

e ela queria ser militar e cantar em coro «onde leva a moça ó senhor»

soldado capitão coronel general que rimava com agrado batalhão

quartel e o general já não se recorda onde levava a moça consigo

só lembrava o cinema Ruacaná das quedas de água da sua terra

de um lado pares de outro ímpares, esquerda direita bilhetes pares

virar à direita. E a esquerda ali, a olhar para ela, ela a seguir à direita

e o amor a ficar a olhar ambos a perderem-se nas estradas da vida.

nuvem de voos: ,
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Sexta-feira, 10.06.11

Bem-aventurança

 

Eu cumpro a idade dos ventos a ondear nos campos semeados

de girassóis em flor, a enfrentar o sol, a roubar-lhe a cor

a segui-lo de rosto aberto. Depois em vénias a pender a cabeça

a perder as pétalas, o disco redondo e prenhe de sementes

a natureza a propagar a espécie a explodir em força.

 

O mesmo sol que enfrento e me desperta pela manhã cedo

A desenhar na parede um quadro em tons de sépia

a luz filtrada pela quadrícula da janela mesclada da persiana

a um lado as sombras baralhadas pelas flores da jarra

sobre a cómoda e na base o ondeado do meu corpo na cama.

Esta luz apetecida para o encontro hoje com a areia da praia

encontro cada vez mais  e mais espaçado no tempo

mas a acender cá dentro o mesmo borbulhar, como da água

gaseificada num copo fino e transparente se desprendem  

bolhas de ar deixando alguns brilhantes a enfeitar o vidro.

 

E se ao rodar leve do copo elas se desprendem agitadas

vivas assim o desejo do mar do sol da areia me desperta

hoje mais do que nunca quando se anuncia dentro de mim

o repicar dos sinos em cantochão, o encontro breve e cheio

a transbordar do mundo que não cabe dentro do peito.

Na quietude, ouço lá fora uma rola a saudar o dia.

 

nuvem de voos:
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